Friday, December 15, 2006

Os malês

Para quem pensa que o Brasil começou a receber muçulmanos com as primeiras levas de imigrantes do Império Otomano, eu digo que estão errados. Os muçulmanos já vêm dando dor de cabeça há muito tempo por essas terras, rsrs.

Muitos africanos que foram forçados a imigrar para trabalhar como escravos no Brasil eram muçulmanos. Entre eles os haussás, mandingas, fulanis, etc. Esses foram responsáveis pela Revolução dos Malês, em 1835, na Bahia.

A imagem que passam para nós dos africanos escravizados na escola e na mídia é a de primitivos ora selvagens, ora dóceis. Mas não nos esqueçamos que eles vieram de um continente onde viveram civilizações avançadíssimas, cujas origens remontam até mesmo ao Antigo Egito (muitas palavras do uolof tem origem na língua do Antigo Egito). A Etiópia foi o primeiro Estado cristão do mundo, a biblioteca de Tombuctu (no Mali) tornou-se famosa, e a tradição oral de muitos povos africanos é tão avançada quanto a nossa maneira escrita de registrar a História. Ou seja, esqueçam aqueles escravos ignorantes de Sinhá Moça e cia..

Os africanos muçulmanos, em sua maioria, faziam parte de uma elite. Talvez por isso eles eram conhecidos por serem metidos à beça e muito rebeldes, tanto pelos outros africanos quanto pelos brancos. Em sua terra haviam sido intelectuais renomados e líderes, mas por algum acaso perderam alguma disputa com outros povos e foram escravizados. Muitos escreviam em árabe, e ensinavam aos filhos e netos. Até o começo do século XX, quando um deles adquiria certo grau de conhecimento, faziam uma festa pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, como registrou João do Rio (“Religiões do Rio”). E mesmo durante a escravidão, os que conseguiam alforria e enriqueciam pagavam a liberdade de outros africanos muçulmanos, e até mandavam seus filhos estudarem religião na África, além de encomendarem muitos Alcorões em uma renomada livraria carioca. Não foi à toa que Gilberto Freyre disse que esses africanos eram muito mais educados e inteligentes do que seus donos brancos (“Casa Grande e Senzala”). Mas eles também eram conhecidos pelos feitiços (a palavra mandinga - uma das etnias africanas - veio daí). Não sabemos se eram bons feiticeiros ou se faziam um teatrinho para manter o respeito. Sei que eles botavam medo no pessoal.

Pouco sobrou dos malês propriamente ditos. Assim como as outras religiões afro-brasileiras, o Islam era proibido e ainda mais vigiado, pois os escravos muçulmanos eram ainda mais rebeldes. Muitos se converteram ao catolicismo ou entraram para o candomblé e outras religiões afro-brasileiras. Mas se pesquisarmos, veremos que até mesmo as religiões afro-brasileiras tem muitos traços que se originaram nesses malês, como a roupa branca na sexta-feira, a linha malê (da umbanda ou da quimbanda? quem souber, me responda).

Até o século XX, muitos líderes religiosos negros de tendência islâmica (os alikalis) viviam no Rio de Janeiro, mas muitos historiadores os confundem com pais de santo. Isso é compreensível, porque então o Islam e as religiões afro-brasileiras conviviam de perto e já se misturavam (e esse processo provavelmente começou ainda na África). O mais famoso deles, Assumano (de Uthman) Mina do Brasil, aprovava os sambas de Sinhô (que fez a música “Jura”, mais conhecida por ser a música de abertura na novelinha O Cravo e a Rosa), o Rei do Samba.

É claro que esses malês não nos lembram os muçulmanos que conhecemos, que falam árabe, vestem um camisolão branco, usam véu, etc. Acontece que o Islam pode assumir várias faces em várias partes do mundo. Além, é claro, das mudanças que a História provoca. No caso do Brasil, a proibição da religião mudou tanto o Islam africano quanto as religiões afro-brasileiras, que são diferentes das suas matrizes africanas. Mas nem por isso eles são menos muçulmanos.

Para terminar, devo dizer que essa história não está tão longe assim de nós. Pierre Verger conheceu um senhor chamado Jibirilu (de Jibrail) na Bahia dos anos 50. Ele tinha um Alcorão, um tessubá (colar de contas, talvez seu nome se origine de tasbi, em árabe), mas também frequentava a igreja católica. E talvez muitos de vocês tenham um avô de origem africana que não coma carne de porco, ou ache que homem não pode se vestir de vermelho (o Islam proíbe o vermelho para os homens). Agora sabem que isso é mais do que implicância de idoso.

 

salam!

Posted by Muslimah in 21:51:10
Comments

9 Responses

  1. Pâmela says:

    ASSALAMU ALAIKUM WA RAHMATULLAHI WA BARAKATUH
    Irmã,parabéns pelo post…como afro-descendente fico muito feliz em saber que algumas pessoas tem consciêcia sobre nossos antepassados.Eu sei que tive um antecessor negro,escravo e muçulmano,mas e quanto aos outros que não sabem ?!? Se muitos brasileiros tivessem consciência de suas origens,com certeza o Islã seria mais respeitado,aceito e até mais difundido no Brasil.Obrigada irmãzinha,esse post me deixou muito feliz…

  2. Muslimah says:

    Esqueci de dizer que esse post é dedicado ao meu marido, que me ensinou muito sobre a História da África e toda a sua riqueza. Não é justo que os afrodescendentes não saibam que são originários de civilizações que deixam a Europa no chinelo.

  3. Antropólogo says:

    Olá, vc poderia recomendar um livro sobre assunto? adorei e sempre quis ter mais informações dos negros muçulmanos brasilieros. Valeu.

  4. Muslimah says:

    Antropólogo, sobre os malês, recomendo:
    “Rebelião Escrava no Brasil: a revolta dos malês, 1835″ de João José Reis.
    “Bantos, malês e identidade negra”, do sambista Nei Lopes.
    “Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e a bahia de todos os santos” e “Os libertos”, ambos de Pierre Verger.

    Quanto à história da África, recomendo o primeiro volume de “História Geral da África” da UNESCO, organizada pelo Ki-Zerbo. E qualquer obra do Ki-Zerbo.

    Espero ter ajudado.
    Salam!

  5. Muslimah says:

    Há um livro do Nei Lopes mais difícil de achar: “Islamismo e Negritude”. Mas o que recomendei antes é mais completo.

  6. É, me desculpe, mas a Revolta dos Malês ocorreu em 1835.

  7. Muslimah says:

    Fábio Valentim, que erro grosseiro o meu! Na pressa, troquei 1835 por 1935. Obrigada pelo toque… e não precisa pedir desculpas por isso!
    salam!

  8. Anonymous says:

    Olá Muslimah,

    As-Salam Walaykum!

    Há, na Umbanda e na Quimbanda, a linha dos malês. Eles são conhecidos por “desmanchar” feitiços e enfrentá-los. São muito respeitados, mas há poucas casas que trabalham com eles, por os desconhecer.
    Como são poucos conhecidos podem se manifestar em outras linhas, principalmente de exus e de pretos-velhos.

    Salam!

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